A triste e injusta história de Kaylee Hottle

Aos dezoito anos, num acidente de carro no Maryland, morreu Kaylee Hottle, a atriz que emprestou o rosto e as mãos a Jia em Godzilla vs Kong. Uma história de verdadeira resiliência interrompida cedo demais, que deixa uma dor imensa.

24 de julho de 2026 · 2 min

kaylee hottle

Kaylee Hottle morreu aos 18 anos, num acidente de carro no Maryland, na noite de 20 para 21 de julho. A sua história é única e, de certa forma, incrível: saber que terminou tão cedo dói mesmo muito.

O carro em que viajava como passageira saiu da estrada em Ijamsville e chocou contra uma vala. O condutor, de dezanove anos, sofreu ferimentos sem gravidade. Ela foi declarada morta pouco depois de chegar ao hospital. As investigações apontam para excesso de velocidade, mas a dinâmica exata ainda está por esclarecer.

Uma família surda, uma língua transformada em ofício

Kaylee nasceu numa família surda há quatro gerações, e cresceu em Kyle, no Texas. Começou a atuar em anúncios publicitários ainda criança, numa indústria onde muito poucos papéis são escritos para quem comunica com as mãos. Em 2017, um anúncio para a aplicação de videochamada Convo levou-a, quase por acaso, à atenção da produção de Godzilla vs Kong. Procuravam uma menina surda para interpretar Jia, órfã da tribo Iwi capaz de falar com Kong através da língua gestual americana. Encontraram-na fora dos canais de casting tradicionais, aos nove anos, sem que ela alguma vez tivesse participado num filme.

Jia, ou o cinema que aprende outra língua

O filme estreou em 2021, e Jia tornou-se uma das personagens mais queridas da saga, não pelos efeitos especiais mas pelo vínculo silencioso com o gorila gigante, construído inteiramente à base de gestos. Alexander Skarsgård aprendeu ASL para comunicar com ela no set. Kaylee retomou o papel na sequela de 2024, Godzilla x Kong: O Novo Império, conquistando uma nomeação ao Saturn Award. Contava que o trabalho com o realizador Adam Wingard passava pelos pais, que traduziam as indicações em gestos. Falava muitas vezes sobre a importância de ver atores surdos a interpretar personagens surdas, e sobre o pouco espaço que ainda existia para eles em Hollywood.

Uma viagem que ninguém gostaria de fazer

O pai, Joshua, também surdo, anunciou a notícia num vídeo no Facebook, em língua gestual, enquanto viajava de avião do Texas para junto da filha.

Não há moral nesta história, e talvez não precise de haver. Havia uma rapariga que já tinha superado mais limites do que alguém deveria enfrentar. E há um final terrível para uma história verdadeiramente injusta.