É o pior Brasil de todos os tempos?

Choose your fighter: Igor Thiago, Pedro ou Fred?

15 de junho de 2026 · 4 min

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No sábado à noite, na partida de abertura do Grupo C, o Marrocos segurou o Brasil no 1-1 e foi, durante grande parte do primeiro tempo, a melhor equipa em campo. Não por acaso, mas porque Bouaddi, El Khannouss e Ounahi sabiam o que fazer com a bola, enquanto o meio-campo brasileiro não sabia. Uma sensação estranha, quase desconcertante.

O Brasil parecia capaz de pouco mais do que combinações elementares entre extremo e lateral. O problema é que os laterais já não se chamam Maicon, Dani Alves e Marcelo, mas Douglas Santos e Ibañez.

O Marrocos pareceu ser a equipa mais capacitada para expor todas as fragilidades do Brasil: a falta de criatividade e visão, o fraco dinamismo e a total ausência de capacidade de pressionar e recuperar a bola.

A lista de convocados conta uma história

27% dos convocados do Brasil para este Mundial jogam no campeonato brasileiro. Parece um pormenor, mas não é, conhecendo os ritmos e a natureza de um campeonato fascinante mas longe dos padrões europeus. Nos últimos quatro Mundiais esse valor nunca tinha ultrapassado os 13%, exceto em 2014, quando chegou aos 17%.

Por outro lado, apenas 35% dos convocados provêm de grandes clubes europeus.

Em 2006, os jogadores de grandes clubes representavam 61%, sem contar os que jogavam em equipas europeias a viver um momento excecional: Juan no Bayer Leverkusen, Luisão no Benfica e o trio do Olympique de Lyon que ganhava a Ligue 1 e chegava aos quartos da Liga dos Campeões, Cris, Juninho e Fred. Nenhum convocado vinha de ligas de nível médio ou baixo, e os 13% que jogavam no Brasil eram maioritariamente suplentes.

Em 2010 já se sentia a falta da geração de ouro e a nova vaga tardava a surgir: Neymar e Pato sem convocatória, Ronaldinho a tornar-se a sua própria sombra. O peso recaía ainda sobre Kakà, Robinho, Luis Fabiano, Thiago Silva, Maicon e Dani Alves. Eliminados nos quartos de final por uma grande Holanda que chegaria à final.

Em 2014 a situação era semelhante: 57% de grandes clubes e um Neymar no seu auge ou perto disso, ausente por lesão no 7-1 das meias-finais contra uma Alemanha avassaladora. Em 2018 a percentagem de grandes clubes chegou aos 74%, mas a história terminou de novo nos quartos, contra uma Bélgica no seu melhor momento. Em 2022 foram 69%, com bons reforços na Europa, Paquetà no West Ham, Richarlison num Tottenham sólido. Eliminados nas grandes penalidades pela Croácia, ainda na sua idade de ouro e finalista quatro anos antes.

Cada vez havia um adversário extraordinário à espera do Brasil. Desta vez, o adversário extraordinário é a própria composição do plantel.

Quem está, quem falta, quem não devia estar

19% dos convocados vêm de ligas de segundo nível. Também isso é um recorde. Fabinho joga no Al-Ittihad e ainda assim pareceu ter o dobro da intensidade de Casemiro frente ao Marrocos. Ibañez joga no Al-Ahli, e perguntamo-nos se o Dodò da Fiorentina era mesmo tão pior. Luiz Henrique e Douglas Santos jogam no Zenit e somam juntos 18 internacionalizações.

Ver João Pedro, Savinho e Alisson Santos em casa é desconcertante. Ver Gabriel Jesus também em casa, apesar da época difícil, enquanto se observa o que Igor Thiago produziu frente ao Marrocos, aproxima-se mais do desespero.

A percentagem de jogadores de grandes clubes europeus não ultrapassa os 35%, e muitos chegam depois de épocas anónimas, Alisson, Casemiro, ou de clubes que parecem mais aristocracia decadente do que verdadeiras potências: Bremer, Matheus Cunha.

Os únicos jogadores verdadeiramente em forma são provavelmente Vinicius Jr., Gabriel (apesar do penálti falhado na final da Liga dos Campeões, que poderá pesar psicologicamente) e Marquinhos. Martinelli ganhou a Premier League a marcar um golo, mas continua a ser um recurso útil. Raphinha oscila entre clarões de classe e exibições invisíveis. A Vinicius basta muitas vezes um momento para resolver um jogo difícil. Raphinha dificilmente acende a luz quando não está no seu melhor dia.

Não surpreende que os adeptos reclamassem por Neymar, mesmo que tê-lo no plantel se assemelhe mais a um ato de fé do que a um verdadeiro recurso capaz de mudar as coisas.

A única variável nova

Este Brasil tem, no entanto, algo que as edições anteriores não tinham. Carlo Ancelotti, um treinador que ganhou tudo e sabe o que significa gerir pressão e talento. Um grande técnico que, porém, sempre construiu os seus sucessos sobre grandes médios, homens que controlavam o ritmo e traziam ordem sem matar a criatividade. Aqui não há nada de semelhante.

Não é fácil dizer se este é o pior Brasil de sempre: talvez os resultados ajudem a classificá-lo melhor. O que é certo é que é o Brasil menos brasileiro de sempre.

Chegará Ancelotti para colmatar as lacunas?