Como Kathleen Krüger se tornou a primeira diretora desportiva do grande futebol europeu

Dezessete anos no Bayern Munique, a estima pública de Guardiola e Thomas Müller. Agora o Hamburgo, para um feito que nenhum clube das cinco grandes ligas europeias tinha registado antes.

6 min

kathleen kruger hamburger sport verein

Em 2020, Kathleen Krüger era team manager da equipa principal masculina do Bayern Munique, mas não só: era também a única pessoa fora do grupo de jogadores autorizada a participar no chat de WhatsApp da equipa. “Sorrio e fico calada”, disse numa entrevista publicada pelo clube, comentando as mensagens que circulavam ali. “Claro que aparecem muitas fotografias engraçadas e piadas.” Thomas Müller, em declarações à Sport Bild, descreveu-a assim:

“É ela quem mantém a equipa unida. Qualquer problema que tenhamos, podemos sempre recorrer a ela.”

Mais do que a descrição de uma dirigente, parece o retrato de alguém que percebeu que gerir pessoas, num ambiente de pressão extrema como o de um clube de elite, exige algo que não se aprende em cursos de gestão. Como se ensina a capacidade de estar presente sem ocupar demasiado espaço, de manter um grupo unido sem impor autoridade, de conquistar confiança sem a exigir?

Kathleen Krüger é a nova Sportvorständin do Hamburger SV. É a primeira mulher a ocupar um cargo equivalente ao de diretora desportiva numa das cinco principais ligas europeias.

A história de Kathleen Krüger

Kathleen Krüger nasceu em 1985 e cresceu na periferia norte de Munique, numa família adepta do Bayern. Entre 2004 e 2007 jogou na equipa feminina do clube, somando 33 jogos e um golo. Retirou-se aos 24 anos, não por razões desportivas nem devido a lesões, mas por necessidade económica: o futebol feminino daquela época não permitia construir uma carreira profissional sustentável. Em paralelo, estudava International Management.

Em 2009 interrompeu os estudos para aproveitar a oportunidade que mudou tudo: entrou na estrutura do Bayern Munique como assistente de Christian Nerlinger, então diretor desportivo da equipa masculina. Foi um movimento lateral em relação ao percurso académico, mas um enorme salto em relação a tudo o resto. Nerlinger, que a conheceu nessa fase, descreveu-a anos mais tarde como “uma pessoa em quem se pode confiar cem por cento. Extremamente diligente, fiável e orientada para objetivos.”

Em 2012 tornou-se team manager da equipa principal masculina. Foi o cargo que ocupou durante doze anos, num dos períodos mais vitoriosos da história recente do futebol europeu. Nesse período o Bayern venceu onze Bundesligas, duas Liga dos Campeões e cinco Taças da Alemanha. Trabalhou com Jupp Heynckes na temporada do Triplete de 2013, e depois com Pep Guardiola, Carlo Ancelotti, Hansi Flick, Julian Nagelsmann e Thomas Tuchel.

Guardiola, com quem desenvolveu uma relação de respeito mútuo, mencionou-a pelo nome em 2022 quando o Bayern enfrentou o Manchester City num amigável de pré-época: “Ainda é amor. Fui muito feliz em Munique, o clube, a cidade. Fico feliz por rever os antigos jogadores, Kathleen.” Segundo a imprensa alemã, Guardiola tentou várias vezes levá-la para Manchester, sem sucesso.

Em 2024 Krüger foi promovida a Senior Leading Expert Sport Strategy & Development, um cargo que a colocou no centro do planeamento estrutural do clube. Segundo a imprensa alemã, estava próxima de se tornar diretora do futebol profissional. Depois chegou a chamada do Hamburgo.

O que faz uma diretora desportiva, e como ela o fará

O papel do diretor desportivo nos grandes clubes europeus mudou profundamente na última década. Já não é, se alguma vez foi, apenas uma função ligada ao mercado de transferências. Hoje é um papel estrutural: definir estratégias de médio e longo prazo, coordenar o scouting, supervisionar a formação, gerir a relação com o treinador, representar o clube nas negociações com empresários e outros clubes, e manter uma rede de relações internas e externas que pode fazer a diferença entre uma época de crise e uma época de crescimento.

No Hamburgo, Krüger não trabalhará sozinha. A liderança operacional será partilhada com Eric Huwer, responsável financeiro do clube, enquanto a gestão de transferências e o planeamento do plantel continuarão nas mãos do diretor desportivo Claus Costa e do chefe de scouting Sebastian Dirscherl. Krüger ocupará a posição estratégica superior, definindo as linhas orientadoras do projeto desportivo e supervisionando toda a estrutura. É um modelo de divisão de competências que o Bayern conhece bem, e que ela viveu por dentro durante quase vinte anos.

Segundo a imprensa de Hamburgo, o perfil procurado pelo HSV não era o clássico alpha da gestão futebolística: nem um antigo craque, nem um nome mediático, nem alguém que construísse autoridade apenas através do passado dentro de campo. Procuravam alguém com competência estratégica, liderança distribuída e experiência na gestão de estruturas complexas. Em outras palavras, procuravam exatamente o perfil de Krüger.

O contexto alemão

A nomeação de Krüger não surgiu do nada. Nos últimos anos o futebol alemão abriu algumas portas que continuam fechadas noutras ligas. Poucos meses antes da sua nomeação, o Union Berlin entregou a equipa principal masculina a Marie-Louise Eta, tornando-a a primeira treinadora numa divisão principal das cinco grandes ligas europeias. Eta conduziu o clube até ao fim da temporada, com resultados semelhantes aos do antecessor, garantindo a permanência.

A nomeação de Krüger insere-se nesse mesmo movimento, mas com uma diferença importante: não se trata de uma solução temporária de fim de época nem de uma promoção interna de emergência. É um contrato de quatro anos, uma decisão deliberada e planeada entre candidatos de alto perfil, para um cargo de liderança num clube que quer voltar de forma estável à parte superior da Bundesliga depois de anos na segunda divisão.

Na comunicação oficial, o HSV recordou ainda que entre 2003 e 2011 já tinha tido uma mulher num cargo de topo: Katja Kraus, primeiro como diretora de marketing e depois brevemente como diretora desportiva interina. Entre Kraus e Krüger passaram quinze anos em que o futebol alemão, e o futebol em geral, falou muito sobre inclusão enquanto mudava muito pouco nas posições realmente importantes.

Hamburgo, agora

O HSV que recebe Krüger é um clube que chega depois de um percurso longo e difícil. Despromovido da Bundesliga em 2018 após 55 anos consecutivos na primeira divisão, passou várias épocas longe do topo antes de regressar na temporada passada. O objetivo declarado é estabilizar-se na Bundesliga e, gradualmente, voltar ao grupo das equipas mais fortes do campeonato.

Michael Papenfuß, presidente do conselho de supervisão, descreveu Krüger como uma personalidade que “combina competência desportiva, pensamento estratégico e elevada capacidade de comunicação”. São exatamente as mesmas qualidades que todos aqueles que a viram trabalhar no Bayern referiram, com palavras diferentes, ao longo de dezassete anos.

A própria Krüger escolheu um tom moderado: “Estou muito feliz pela confiança depositada em mim. É um verdadeiro privilégio poder desempenhar um papel decisivo na construção do futuro do Hamburgo.” Nenhuma declaração histórica sobre o simbolismo do momento, nenhuma ênfase sobre o significado da nomeação. Apenas foco no trabalho que vem a seguir.