O novo álbum dos Strokes, Reality Awaits, parece feito de propósito para irritar o público mais amplo possível, um pouco como o Ferrari Luce. Não vai conquistar muitos fãs novos, nem convencer boa parte dos fãs históricos.
Seis anos depois de The New Abnormal, a expectativa em torno de Reality Awaits era enorme. Com o single Going Shopping, a própria banda já tinha se encarregado de baixar as expectativas, ou pelo menos de deixar clara desde já a direção que o novo álbum tomaria.
Continuar comparando os Strokes quase cinquentões com os de 2001 e 2003 simplesmente não faz mais sentido. Algumas modas sempre voltam, ou nunca vão embora, como calças largas ou bombardeios americanos no Oriente Médio, mas aquele momento histórico se apoiava em dinâmicas completamente diferentes das de 2026.
Os Strokes de hoje precisavam decidir: virar uma caricatura de si mesmos, talvez com turnês comemorativas de Is This It e jaquetas de couro de boomer recém divorciado, ou se comportar como Strokes, abraçando a passagem do tempo, mesmo correndo o risco de não agradar. Escolheram claramente a segunda opção.
Reality Awaits está repleto de autotune, mas quem se surpreende com essa escolha provavelmente nunca reparou o quanto Julian Casablancas usou efeitos vocais, de forma mais que massiva, em quase todos os seus álbuns.
O fato de o som distorcido e comprimido de sua voz em Is This It ter sido celebrado, enquanto o autotune de Reality Awaits é massacrado, não muda a essência: é sempre um uso artístico de uma ferramenta que modifica a voz.
De qualquer forma, as sonoridades de Reality Awaits nos lembraram tanto os Daft Punk que não encontramos forma melhor de classificar as músicas do que esta: da mais Daft Punk à mais Strokes.
9 - Falling out of Love
6 minutos e 20 de música, uma espécie de odisseia para o tempo de atenção das novas gerações (mas também das antigas, desgastadas pela internet). Daft Punk a 110%, soa como uma demo de Random Access Memory, uma faixa difícil que se ama quando se lê com atenção a letra.
8 - Psycho Shit
Mais Daft Punk ou mais Exit Music (For a Film) do Radiohead? Boa pergunta, ainda mais complicada pelos ecos de The Gnome e See Emily Play dos primeiros Pink Floyd que surgem na segunda parte, perturbadora, da faixa. A música mais difícil do álbum, e também a primeira: daqui em diante, é tudo ladeira abaixo.
7 - Tyrants of the Mellow Moon
A última faixa do álbum, talvez também seu manifesto. De qualquer forma, bastante Daft Punk nos sons.
So we go for one more ride And that's okay 'cause I did my time But now I wait for another chance When I will take everything I canHere we are for the final time And I hope you say that I made you laugh Oh, I tried to make things right Though it's hard, maybe I can for just one night Though I never say the same thing twice I will sigh one more time
6 - Going Shopping
Ouvindo todo o álbum, é difícil entender por que Going Shopping foi escolhida como single, como cartão de visitas depois de 6 anos de silêncio. Não é a melhor faixa, não é a mais voltada para a experimentação, não é a mais ligada à história dos Strokes. Talvez seja justamente por isso que se explica tão bem por que foi escolhida como single.
5 - Liar's Remorse
Uma música que não se parece com nada, exceto por um início que lembra Stairway To Heaven e se dissolve em 30 segundos em algo quase reggae. Enquanto se espera a bateria chegar, você fica grudado nas frases de Julian, que dançam sobre uma base excessivamente simples. Também aqui as palavras levam a música a outro nível, mas não tanto quanto o outro, que pega toda aquela espera pela bateria e a resolve num final de tirar o fôlego. Uma faixa realmente surpreendente, que começa sem nenhuma expectativa, melhora minuto a minuto e acaba se tornando uma das suas favoritas.
4 - Dine N'Dash
Aqui começamos a entrar numa área povoada por músicas que não pareceriam nada absurdas em qualquer outro álbum dos Strokes.
3 - The Fruits of Conquest
Não está em primeiro lugar apenas porque é mais Rolling Stones do que Strokes. Um pouco de Gimme Shelter, um pouco de Mess It Up, um pouco de Mick Jagger em Miracle Worker.
2 - Lonely in the Future
Reality Awaits pode agradar ou não, como já dissemos parece um álbum feito para dividir, mas sobre Lonely in the Future há pouco a discutir: é uma faixa estrondosa.
Há inovação, sim, mas ainda assim parece uma canção saída direto de 2001 e disfarçada à perfeição para caber em 2026. Estaria em primeiro lugar não fosse aquele desvio de autotune que nos lembra que não, não é uma faixa de 2001.
1 - Going to Babble On
Remete a Threat of Joy e Someday, com alguns ecos de Phoenix. Para os amantes dos Strokes mais clássicos, será a melhor faixa do álbum. Se nos dissessem que veio de qualquer outro disco da banda, não teríamos dificuldade em acreditar.